A ideologia diluída na escrita

Hugo Ferro | 16 agosto 2014

Li um texto sobre os itinerários socioculturais da direita portuguesa contemporânea — aquilo a que eu chamaria a «direita pop portuguesa» —, deixando de fora algumas importantes personagens desta facção da direita e ignorando, por completo, uma outra direita ou outras direitas mais perigosas, mais complexas, mais conservadoras, intelectualmente mais evoluídas, completamente fechadas a influências do exterior, que nunca se reviram nos maneirismos desta «direita pop», que emergiu a partir do final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, que se consolidou a partir da entrada de Portugal na CEE e que entrou triunfante nos anos 1990, entranhando-se em vários sectores da sociedade, mantendo-se numa posição confortável até aos dias de hoje.

O texto tem uma intenção óbvia, mas o que me fez reflectir não foi o conteúdo do texto em si, foi algo mais complexo, que o autor aborda de uma forma muito leve, tal é a quantidade de informação que quer despejar: a questão da ideologia diluída na escrita, na cultura, nos maneirismos, na estética…

A maior parte dos autores são facilmente decifráveis em termos ideológicos, porque abrem o jogo, assumindo a sua posição. Através do conteúdo dos textos, percebe-se perfeitamente de que lado do espectro político estão. Há alguns mais complexos, que não abrem tanto o jogo e, por norma, sempre foram esses os que mais me intrigaram.

Partindo de algumas referências contidas no texto, decidi fazer um exercício: folheei alguns números da revista Kapa dos anos 1990, 1991, 1992 e 1993 em busca de textos que confirmassem esta minha ideia. Para dificultar ainda mais o exercício, escolhi alguns textos do Miguel Esteves Cardoso sobre comida e bebida (sim, o cabrãozinho já escrevia sobre isso, naquela época). O que se nota de imediato é que escreve sempre a partir do ângulo do consumidor, do cliente, do apreciador do produto e nunca do ângulo do processo de transformação do alimento, da técnica, do lado operário da coisa; porque esta «direita pop» despreza o operário, porque o inveja, porque é incapaz de produzir o que quer que seja, embora viva encantada pelo produto.

A única coisa que ainda vão conseguindo produzir é discurso, quer seja falado ou escrito. É um discurso desinteressante e vazio, mas que conquista, de imediato, um leitor menos preparado. Basta ver a quantidade de gente de esquerda que continua a partilhar textos do Esteves Cardoso, sem perceber que está a ser iludida (por exemplo aquele das mulheres do norte, escrito em Novembro de 1990). O poder de influência destes textos está na estética e na diluição da ideologia que contêm.

Há uns tempos, comecei a aperceber-me que, assustadoramente, o meu estilo de escrita se cruza, em certos pontos, com o do Esteves Cardoso. Não é algo que faça intencionalmente, é casual, e acaba por ser incomodativo. Uso excessivamente pontos finais e insisto numa inclusão, por vezes forçada, de um jargão que afirma a minha posição ideológica e sociocultural. Tentei afastar-me deste estilo de escrita, mas percebi que era impossível e que os meus textos perdiam toda força, porque não tenho aptidão para trabalhar textos, de forma a alterar o estilo natural. Ao fazer estes recuos e avanços, percebi que é na estética do texto, na forma como é escrito que consigo ir diluindo a minha ideologia, sem que seja necessário haver uma referência directa à minha posição política ou sociocultural. É isto que os gajos dessa «direita pop» têm feito ao longo de várias décadas.

Apesar de haver um estilo de escrita que se aproxima em determinados pontos, o conteúdo é oposto. No meu caso, o jargão usado será sempre o da rua, o ameaçador; no caso dele, será sempre o do menino bem. Estes artifícios estéticos, reflectem posições ideológicas completamente distintas que, quando são bem diluídas, conseguem convencer leitores que defendem uma posição ideológica oposta, porque lhes agrada a estética.

Acredito que é muito mais fácil implantar uma ideologia através desta forma dissimulada ou diluída, do que de forma directa. Em relação a isso esta «direita pop» sempre esteve muito à frente de tudo o resto, daí ter conseguido alcançar uma posição social muito acima do que as suas reais capacidades permitiriam, deixando para trás uma esquerda desleixada e perdida, culturalmente desinteressante e esteticamente horrível e uma direita conservadora que não consegue fazer com que o seu discurso, demasiado rígido, seja absorvido pelas massas, criando ela própria uma barreira, sem se aperceber disso.

Enquanto a esquerda não conseguir perceber estes artifícios ideológicos, usando-os em benefício próprio, pondo de parte a flacidez e recuperando a firmeza e a agressividade que teve em tempos, será muito difícil concretizar uma mudança de paradigma, porque o discurso político, per si, é desinteressante para a maioria das pessoas e não tem força nenhuma, quando em competição com todos os outros discursos que vão circulando a uma velocidade incontrolável. É necessário captar a atenção das pessoas e fazê-las parar um pouco para pensar e isso não se consegue de outra forma que não seja a da ideologia diluída nos discursos não políticos.

A rede

Hugo Ferro | 12 agosto 2014

Tenho descoberto na rede social a revelação voluntária de toda a estupidez humana presente nas actividades e informações inúteis partilhadas até à exaustão. Um entulho simbólico desnecessário, mas que agarra ao ecrã uma tulha de gente que procura, no vazio mental, a orgia fácil.

Esta vida social virtual limita a acção, diminui e torna mais pobre a existência real, ao mesmo tempo que passa para a rede os problemas da vida, da morte, do amor, do ciúme, da inveja, do ódio e da alegria efémera que se vai tornando num ciclo vicioso que reflecte o adormecimento e a inacção colectiva que corrói estes tempos estranhos.